Uma crônica
Antes que o remédio para dormir dissolva o resto do dia, percebo a paisagem inteira daquilo que fui: tudo o que um dia fez sentido para mim nunca chegou a acontecer. Fui injusta comigo, traidora de mim mesma, fraca diante do que eu precisava sustentar.
Eu nunca sonhei grande demais. Nunca quis castelos inalcançáveis. Desde cedo, me bastavam a simplicidade, a liberdade e o contato vivo com pessoas e lugares. E, mesmo sabendo disso, fui me equilibrando e desequilibrando em trilhos tortos, afastando-me daquilo que era essência.
Entreguei meus anos de juventude a alguém vazio. Trouxe ao mundo duas vidas que mereciam uma mulher mais inteira do que eu fui. Abandonei os livros que sempre foram companhia, a dedicação aos estudos que sempre me pertencera.
Hoje, caminhando pela rua, vi gente conversando, sorrindo, pertencendo a algo,e percebi o quanto a solidão tem me habitado como um quarto sem janelas. Não tenho um lar onde eu seja esperada, nem laços onde eu possa pousar.
Ainda assim, algo em mim insiste: a vida parece me chamar, talvez não a vida de fora, mas a pequena chama que pulsa por dentro, mesmo enfraquecida. Tenho medo de olhar no espelho e não me reconhecer ou reconhecer aquilo que deixei morrer.
Às vezes penso que me perdi há tanto tempo, lá atrás, numa época que já não alcanço com a memória. E, nesses momentos, o único consolo que encontro é lembrar que sou finita.
Acho a morbidez tão brega,mas mesmo assim,me visto dela em tantos momentos.
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