O diálogo ( Não era uma noite branca)
Aquela noite,leitor,não era uma noite de sonhos,era uma noite de verdades...
Não era uma noite branca, mas fazia um frio confortável. Sentaram-se de frente um para o outro, no centro da mesa, um vaso discreto com uma florzinha rosa claro simpática, dividindo os espaços. Pode até parecer invenção produzida pelo emocional fantasiador dele, mas juro, que tocava baixinho o DVD do Pearl Jam Unplugged MTV...
Ela não esperava pelo diálogo que se aproximava, as formas das palavras se moldando a encaixar e transmitir os sentimentos.
Ele sabia que o caos que o habitava transparecia na sua não intencional indiferença, e no seu ato de sempre se manter afastado, sabia também que feria a sensibilidade dela.
Seus movimentos acompanhados de descomprometimentos eram um muro, uma fortaleza na qual se sentia protegido e que barrava a possibilidade de consolidação de uma relação verdadeira.
Ela ali, sempre ali. Naquele restaurante, nos aniversários, se fazendo presente em todas as coisas, presente na distância, mesmo em incômodos e mágoas, ela ali para ele.
Ele era bom, era maravilhoso, ela sabia; se derretia em seus braços fortes,sua altura a atraía. Ele era um homem tão organizado e cheirava tão bem...mas era impossível não se desgastar com as constantes ausências.
O que exatamente ele sabia dela, me foge do conhecimento, pois como já mencionado, ele vivia atrás de uma fortaleza, mas ela sentia ao olhar seus olhos, um paraíso sombrio, força e lealdade.
O Diálogo se Inicia
Ele:
— Eu sinto mais do que consigo controlar. Você mexe comigo de um jeito que me acelera por dentro. Existe intensidade, movimento, desejo e algo que me impulsiona em sua direção — mesmo quando tento resistir. Sinto algo que me ultrapassa.
Ela se surpreendeu, a primeira vez que ele usa as palavras “eu sinto”, ele sempre proferia “eu tenho, tenho um carinho por você, tenho saudades de você...”
Ela queria responder de forma totalmente entregue, mas lembre-se, leitor, do desgaste emocional dela.
— Ainda estou disposta a caminhar com você, mas não me aprisionarei a incertezas.
(Não irei descrever o ambiente, ou as expressões de forma precisa, vamos deixar que o diálogo flua, imagine-se ali, se conseguir.)
Ele:
— Eu queria me jogar de verdade. Começar algo forte, sem peso com você. Parte de mim sonha com leveza, estar com você. Mas tenho trevas que me limitam... Você demonstra demais, isso é assustador.
Ela:
— Eu te sinto, com sinceridade começou a dizer, eu te vejo. Em você reconheci algo raro — algo que me moveu. Ofereci amor limpo, presença e calor. Mas não permanecerei onde minhas emoções precisem ser contidas.
Ele:
— Dentro de mim há conflitos. Não sei lidar com o que sinto. Luto comigo mesmo — entre o que quero e o que acredito que posso ou mereço.
Ela:
— Eu me vejo dividida, uma parte quer insistir, outra quer soltar. Estou tentando ouvir meu coração, mesmo quando não está inteiro.
Ele:
— Eu quero me entregar, mas me limito.
Ela:
— Eu, disse ela com certa timidez, mas certa com ela mesma, sou chama viva, sou brilho, intensidade e certezas. Doo-me por inteira quando sinto conexão, mas não mereço ser diminuída.
Ele:
— Se causei a percepção de que você é pouco, é reflexo de mim mesmo. Você é muito. É o meu lugar de silêncio, meu ponto de cura. Às vezes me afasto porque estou tentando me entender — mas é em você que minha alma encontra repouso.
Ela se emocionou e percebia que tudo ia ficando tão claro, a imaturidade dos sentimentos, a dificuldade de decisão, o ego, a dependência e a codependência. E entendeu a discrepância entre eles:
— Meu coração ainda pulsa por você, meu sentimento é legítimo. Eu não te amo por carência — eu te amo por consciência.
Ela ia continuar, mas se silenciou.
Ele:
— Você é uma dádiva, uma chance real. Um novo começo que a vida me ofereceu. Mesmo que ainda eu não saiba cuidar disso, a minha alma reconhece o valor da sua existência. Mesmo entre meus silêncios, eu percebo você.
Ela queria tanto - tanto - que aquilo terminasse em beijos, amor sem interrupções e sem diferenças, mas não era justo consigo mesma, tanto ela tinha se deixado para depois, para viver o agora dele; e nem justo com ele, ele se via preso a algo que não conseguia verdadeiramente se entregar e isso tinha um peso dolorido.
Nos seus pensamentos, ela sentia que algo ia se perdendo, sabia que deveria caminhar por estradas em que não a vissem como dúvida;mas não era válido mentir para si mesma e negar o inegável.
— Você precisa dos seus silêncios e distâncias, que você encontre as respostas que busca. Eu preciso também saber mais de mim, busco há tempos a individuação.
Quem sabe a gente se encontre e ao nos encontrarmos, talvez estejamos prontos um para o outro. Espero estar onde haja clareza, reciprocidade, coragem. Seria fantástico que lá você também estivesse.
Muito mais foi dito com os olhos, leitor. Eles se levantaram, se abraçaram e seguiram em suas distintas direções.
Não houve um reencontro, ele não se decidiu.
Ela foi embora e não voltou.
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