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Maça

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Aos domingos, provo o sabor. Os dias anteriores passam, segurando os fios doces da saudade que ferve. É quase pecado sentir algo tão voraz. Quando minha boca se curva até a sua, o exterior se silencia. As vontades falam alto, rugem nuas e urgentes. Estar contigo é como morder o pedaço de algum paraíso — há desdobramentos. Saio sempre inteira.

Desoprimir

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Assisto a muitos filmes, alguns muito bons. Procrastino tanto, me diminuo em silêncios. Conto nos dedos os anos de possibilidades, sinto cada marca me atravessando sempre ao ir dormir. Mesmo alguns passos sendo para frente, caminho em círculos pesados. Às vezes, encaro minha face, vejo alguma angústia ali. Há fios brancos se destacando nos meus longos cabelos. Olhei nos olhos de uma menina, o sorriso dela tinha um frescor de novidade, alegria e percepções gentis. Apenas mais tarde ela se daria conta da própria solidão. Apago mensagens, esqueço sofrimentos. Algumas felicidades anestesiam. Penso em fazer uma lista de 36 coisas boas, uma para cada ano, mas prefiro não ousar. Há muitos cantinhos de frieza pelo mundo, mas não deveria um deles estar em você. Tenho muitas opiniões e teorias, um longo varal de pensamentos críticos esticado em mim, mas só permito julgar a mim mesma. Os prendedores mais fortes me suspendem e me calam.

Seu cheiro

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Tamanha intensidade do calor só se comparava à fervura dos pensamentos. Em meio ao caos silencioso e aos barulhos externos do carro, senti seu cheiro. — Estou de vez enlouquecida — pensei. O cheiro era tão óbvio que quase pude tocá-lo. Vinha e amenizava, trazia consigo o gosto do beijo, o sentir da pele, os suspiros e os aconchegos. Como poderia eu estar imersa nas delícias dessa paixão se, dessa vez, meu emocional estava em um raro equilíbrio? Ah, Bonitão, são tantos delírios tolos… Após tantos sinais vermelhos — do trânsito e também da vida — parei o carro, mas o coração continuava a te cheirar. Faz dois dias esse acontecimento e, hoje, apenas hoje, me dei conta de que seu cheiro estava no cinto, desde aquele domingo quente em que você dirigiu meu carro.

Uma crônica

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Antes que o remédio para dormir dissolva o resto do dia, percebo a paisagem inteira daquilo que fui: tudo o que um dia fez sentido para mim nunca chegou a acontecer. Fui injusta comigo, traidora de mim mesma, fraca diante do que eu precisava sustentar. Eu nunca sonhei grande demais. Nunca quis castelos inalcançáveis. Desde cedo, me bastavam a simplicidade, a liberdade e o contato vivo com pessoas e lugares. E, mesmo sabendo disso, fui me equilibrando e desequilibrando em trilhos tortos, afastando-me daquilo que era essência. Entreguei meus anos de juventude a alguém vazio. Trouxe ao mundo duas vidas que mereciam uma mulher mais inteira do que eu fui. Abandonei os livros que sempre foram companhia, a dedicação aos estudos que sempre me pertencera. Hoje, caminhando pela rua, vi gente conversando, sorrindo, pertencendo a algo,e percebi o quanto a solidão tem me habitado como um quarto sem janelas. Não tenho um lar onde eu seja esperada, nem laços onde eu possa pousar. Ainda assim, algo em...

Casa

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Sonho com uma casa de luzes. As paredes internas, cor palha, e bolinhas luminosas conectadas por fios… Algo também se acende dentro de mim. A casa cheira levemente a amaciante, tem livros na sala e nos quartos. No banheiro, um quadro engraçado me faz sorrir. Às vezes eu danço, sinto o chão de pés descalços, e algo se solta de dentro para fora. A calma de caber inteiro em um lugar seguro. As cortinas se mexem com leveza; elas gostam do vento e desejam a chuva. Aqui não há goteiras da infância, mas cantos de passarinhos se escondem nos cantos. Meus filhos descansam e riem com liberdade, e eu fecho os olhos e continuo vendo. A casa se mantém firme, e eu envelheço.

Vinícius

Não queria que fosse assim. É estranho, eu sei, mas existe um fio invisível que me prende a você. Eu reconheço a distância entre nós,  entre os sentimentos  e mesmo assim, a razão não basta para me libertar. Você, sempre tão longe, no corpo e no coração, e eu, tecendo sua presença dentro de mim. Seus silêncios gritaram segredos. Não sei se os ouvi direito. Dizem que você brincava comigo, com meu afeto, por puro ego, por passatempo. Eu não consigo acreditar por inteiro. O que ficou claro foi a sua ausência: seu afastamento, sua indiferença às minhas necessidades, a forma como não me viu como alguém para todos os instantes. E, ainda assim, nunca te desprezei. A dor não foi por você, mas pela esperança que não soube se soltar. Hoje, o que sinto é um desejo forte, bonito e triste: o de esquecer você para sempre. Que esse laço invisível, enfim, se rompa.

Julieta dos espíritos

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A poesia assusta; a poesia impacta. Quando algo avisado acontece,duas almas se alinham para um encontro superior. Dispo-me das obrigações e esperas.O destino o coloca ali,sentado à minha frente,os olhos se declarando silenciosamente. As belas mulheres suspiram,insatisfeitas. Os homens de poderosas atuações se distanciam. As imagens ficam borradas;os vermelhos entram em estado de bruma. A tristeza se desprende,segue o trânsito das indiferença. As músicas de rimas pobres e cantor de voz disforme abafam certas emoções. As palavras,às vezes tão óbvias,tiram a grandeza do espetáculo. As pulseiras fora de voga emocionam,levam-me a um lugar longínquo. Alguém demonstra sua arte- levanta e desce o véu da ilusão,da demonstração,da sua verdade. Sentimento puro/ monstro derrotado/colibri de amor. Minha escrita amadurece antes de mim,torna-se límpida e eleva o frescor interno. Como um afago nos faz respirar...Ah... Beberei e esquecerei  Sua silhueta refletida na parede,enquanto meus olhos se ev...