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Mostrando postagens de outubro, 2025

Uma crônica

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Antes que o remédio para dormir dissolva o resto do dia, percebo a paisagem inteira daquilo que fui: tudo o que um dia fez sentido para mim nunca chegou a acontecer. Fui injusta comigo, traidora de mim mesma, fraca diante do que eu precisava sustentar. Eu nunca sonhei grande demais. Nunca quis castelos inalcançáveis. Desde cedo, me bastavam a simplicidade, a liberdade e o contato vivo com pessoas e lugares. E, mesmo sabendo disso, fui me equilibrando e desequilibrando em trilhos tortos, afastando-me daquilo que era essência. Entreguei meus anos de juventude a alguém vazio. Trouxe ao mundo duas vidas que mereciam uma mulher mais inteira do que eu fui. Abandonei os livros que sempre foram companhia, a dedicação aos estudos que sempre me pertencera. Hoje, caminhando pela rua, vi gente conversando, sorrindo, pertencendo a algo,e percebi o quanto a solidão tem me habitado como um quarto sem janelas. Não tenho um lar onde eu seja esperada, nem laços onde eu possa pousar. Ainda assim, algo em...

Casa

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Sonho com uma casa de luzes. As paredes internas, cor palha, e bolinhas luminosas conectadas por fios… Algo também se acende dentro de mim. A casa cheira levemente a amaciante, tem livros na sala e nos quartos. No banheiro, um quadro engraçado me faz sorrir. Às vezes eu danço, sinto o chão de pés descalços, e algo se solta de dentro para fora. A calma de caber inteiro em um lugar seguro. As cortinas se mexem com leveza; elas gostam do vento e desejam a chuva. Aqui não há goteiras da infância, mas cantos de passarinhos se escondem nos cantos. Meus filhos descansam e riem com liberdade, e eu fecho os olhos e continuo vendo. A casa se mantém firme, e eu envelheço.