Uma crônica
Antes que o remédio para dormir dissolva o resto do dia, percebo a paisagem inteira daquilo que fui: tudo o que um dia fez sentido para mim nunca chegou a acontecer. Fui injusta comigo, traidora de mim mesma, fraca diante do que eu precisava sustentar. Eu nunca sonhei grande demais. Nunca quis castelos inalcançáveis. Desde cedo, me bastavam a simplicidade, a liberdade e o contato vivo com pessoas e lugares. E, mesmo sabendo disso, fui me equilibrando e desequilibrando em trilhos tortos, afastando-me daquilo que era essência. Entreguei meus anos de juventude a alguém vazio. Trouxe ao mundo duas vidas que mereciam uma mulher mais inteira do que eu fui. Abandonei os livros que sempre foram companhia, a dedicação aos estudos que sempre me pertencera. Hoje, caminhando pela rua, vi gente conversando, sorrindo, pertencendo a algo,e percebi o quanto a solidão tem me habitado como um quarto sem janelas. Não tenho um lar onde eu seja esperada, nem laços onde eu possa pousar. Ainda assim, algo em...